Em toda a sua obra
Swedenborg se define "apenas como um instrumento". Um
homem famoso, reputado como sábio, certamente tinha uma boa dose de
vaidade intelectual. Mas, como tinha a crença em Deus e a
consciência dos valores espirituais, à medida que entrava na
pesquisa do reino da alma, compreendia, cada vez mais claramente,
que era indispensável admitir a existência da Mente Divina
criadora e mantenedora das ordens e leis que ia desvendando.
Foi necessário que se
despojasse de toda a vontade própria e das idéias preconcebidas,
antes de se tornar um instrumento adequado para o trabalho que lhe
seria incumbido. Sua consciência da liderança Divina ficou mais
forte com o passar do tempo. Apesar de toda a ciência que sua mente
acumulara, começou a perceber que tudo o que sabia era como nada
diante do que havia à sua frente. Ou antes, que uma preparação
estava em curso. No ano de 1743, durante uma de suas viagens,
Swedenborg escreveu, na noite de 12 a 13 de outubro [1743],
escreveu: "Descobri que estou em tal estado que não sei
nada sobre a religião". E, no dia anterior, escreveu:
"Não tenho nenhum conhecimento de religião; perdi-o por
completo".
Por essa época, seus
sonhos e visões eram, freqüentemente, seguidos de violentos
tremores, prostração, transes, suores e, pelo menos numa ocasião,
vertigem. Durante esses episódios, Swedenborg imergia em um sono
sobrenatural, por períodos de dez a treze horas. Seu sistema
nervoso estava, indubitavelmente, extenuado com toda essa pressão,
já que durante o dia continuava se dedicando ao trabalho
literário; e a Natureza exercia sua demanda. Podemos compreender
porque freqüentemente passava por seus amigos na rua e sequer
percebia seus cumprimentos.
Um crítico há de dizer
que tais coisas são comuns a todos os entusiastas. No entanto,
Swedenborg era justamente o inverso do entusiasta. E há aspectos de
seu caso que diferem totalmente dessas experiências corriqueiras.
Ao contrário do que geralmente ocorre nos extremos de transe ou de
excitação religiosa, Swedenborg estava constantemente observando e
estudando suas próprias experiências com olhos de cientista. Sabia
perfeitamente que as pessoas eram levadas, pela emoção, a imaginar
toda sorte de coisas e estava sempre precavido contra essas
extravagâncias. Na noite de 6 para 7 de outubro, escreve: Os
seres humanos podem ser facilmente desencaminhados por outros tipos
de espíritos (por exemplo, espíritos malignos) que se apresentam
aos homens segundo a qualidade do amor de cada um. Sobre uma de
suas visões, escreveu: Nosso Senhor sabe melhor o que tudo isso
significa. E continuando: Deus não permite que eu me
equivoque sobre isso; acredito que não me equivocarei. Após
uma noite de sonhos horríveis e tremores do corpo, escreve: Comecei
a questionar se tudo isso não passava de mera fantasia. Parece
evidente, portanto, que não estava sendo levado por sua
imaginação.
O caso de Swedenborg é
realmente único. Pode-se admitir que um ignorante, um fanático ou
um débil mental confundam alucinações com a realidade; mas não
um homem normal, um matemático e adepto da lógica, devoto das
ciências naturais. Tampouco pode-se atribuir o ocorrido com
Swedenborg a uma súbita "conversão". E não há nenhum
indício de enfraquecimento das faculdades mentais ou doença
mental, pois na época em que esses fenômenos ocorriam, Swedenborg
estava trabalhando na publicação e editoração de seus trabalhos
filosóficos que foram reconhecidos pelos mais notáveis
intelectuais de nosso tempo, como sendo o produto de admirável
capacidade mental; note-se, ainda, que continuou a escrever e
publicar seus trabalhos durante quase trinta anos, com uma
integridade e consistência que levaram os estudiosos que os
examinaram a concluir que extrapolavam os limites da sabedoria de um
mortal. A explicação mais plausível parece ser a do próprio
Swedenborg.
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Na época em que pesquisava
a sede da alma no corpo, os indícios de sua transformação se
faziam cada vez mais aparentes, principalmente no tocante à
natureza e à unidade de Deus e da suprema Divindade de Jesus
Cristo. Em um dos primeiros registros de seu diário, lê-se: Somente
a Cristo, em quem reside a totalidade de Deus, devemos dirigir
nossas preces. Ele é onipotente e o único Mediador. E uma
oração citada acima foi novamente posta em sua boca: "Oh!
Jesus Cristo, Todo poderoso".
A essa época, porém, ele
ainda não tinha idéia da missão para a qual seria convocado,
embora algumas passagens indiquem que tinha algumas premonições
dela. Na noite de 21 para 22 de abril, escreve: Como eu parecia
tão distante de Deus e não podia pensar nEle de maneira
suficientemente clara, cheguei a me perguntar se não seria melhor
retornar à casa. No entanto, criei coragem e percebi que eu tinha
vindo à Holanda para fazer aquilo que é o melhor de tudo e que eu
tinha recebido o talento para propagar a glória de Deus; que o
Espírito está comigo desde minha infância com esse propósito;
portanto, eu seria indigno da vida se me afastasse do caminho
traçado. Então, comecei a rir das seduções de riqueza, luxo e
honrarias que tanto perseguira.
Esse admirável diário
termina com o registro da noite de 26 para 27 de outubro; mas temos
testemunhos de experiências posteriores em outros documentos. O
mais importante desses é o depoimento de Carl Robsahm, sobre o
relato do próprio Swedenborg a respeito da aparição do Senhor a
ele, em abril de 1745. Não vemos necessidade de nos alongarmos em
detalhes constantes de biografias anteriores; mas a parte final do
depoimento é importante, pois marca o início da transformação da
vida de Swedenborg. Essa experiência certamente irá determinar o
caráter de seus anos vindouros. Um homem lhe apareceu numa
hospedaria logo após o jantar; ficou visivelmente alarmado com a
súbita aparição. Segundo Robsahm, o relato de Swedenborg pode ser
resumido assim:
Fui para casa e durante a
noite o mesmo homem revelou-Se a mim novamente; desta vez não tive
medo. Ele então me disse que era o Senhor Deus, o Criador do mundo,
o Redentor; e que tinha me escolhido para explicar aos homens o
sentido espiritual da Escritura, e que Ele próprio iria explicar-me
o que eu deveria escrever sobre esse assunto. Naquela mesma noite me
foram revelados, para que eu ficasse plenamente convencido de sua
realidade, o mundo dos espíritos, o céu e o inferno, e reconheci
em cada um desses lugares todas as situações da vida. A partir
daquele dia eu abandonei todos os estudos de ciências mundanas e me
dediquei às coisas do espírito, sobre as quais o Senhor me ordenou
escrever. Daí por diante o Senhor abriu, diariamente, os olhos do
meu espírito, de modo a que eu pudesse ver, em pleno dia, o outro
mundo e, num estado de perfeita vigília, conversar com anjos e
espíritos.
Um
depoimento realmente notável, feito de modo claro e simples, sem
qualquer traço de misticismo ou fanatismo. Para saber se Swedenborg
foi realmente favorecido, basta consultarmos seus trabalhos, que
são a única resposta satisfatória a essa pergunta.
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Na obra intitulada "A Verdadeira Religião
Cristã (760 [740])", Swedenborg escreve o seguinte:
"A Segunda Vinda do Senhor se efetua por
intermédio de um homem diante de quem o Senhor Se manifestou em pessoa
e a quem encheu com seu espírito para ensinar de si mesmo as doutrinas
da nova igreja confinadas na Palavra.
"Visto que o Senhor não pode manifestar-se outra vez em pessoa,
apesar de ter profetizado que viria estabelecer uma Nova Igreja, a
qual é a Nova Jerusalém, segue-se que essa manifestação será
efetuada por intermédio de um homem que possa, não somente receber as
doutrinas dessa Igreja em seu entendimento, mas também fazer sua
propaganda pela imprensa. Que o Senhor se manifestou a mim, seu servo, e
me encarregou desta missão, e depois abriu a vista de meu espírito, introduziu-me no Mundo Espiritual, permitiu-me ver os céus e os
infernos e falar com os anjos e os espíritos, e isto continuadamente
durante muitos anos até o presente (1771), eu testifico como verdade;
testifico igualmente que, desde o primeiro dia de meu chamado a esta
missão (1743), jamais recebi coisa alguma concernente às doutrinas
desta Igreja por intermédio de qualquer anjo, mas tão somente do
Senhor, enquanto eu lia a Palavra. Para que pudesse estar sempre
presente, revelou-me o Senhor o sentido espiritual de Sua Palavra, no
qual o Divino Vero está em sua luz".
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Swedenborg era já ancião
venerável, com mais de sessenta anos, quando, pela primeira
vez, declarou ao mundo que havia sido chamado para sua
missão religiosa. Sob o ponto de vista do interesse material, teria
ele, desde então, muito que perder e nada que ganhar. Embora não
houvesse, na Suécia, quem fosse mais respeitado e admirado pela sua
ciência, nem quem tivesse integridade de caráter menos exposta a
dúvidas, compreendeu Swedenborg que a maior parte do mundo céptico tomaria
sua afirmação por absurda e não se dignaria de levá-la a sério,
pondo-a de lado, sem qualquer exame.
Numa conversa com Carl Robsahm,
muitos anos mais tarde, comentou: "De minha parte nunca
suspeitei que iria atingir o estado espiritual em que estou agora; mas o
Senhor me escolheu para essa tarefa de revelar o significado espiritual
das Sagradas Escrituras, conforme Ele havia prometido nos Profetas e no
livro do Apocalipse. Até então, tinha-me dedicado a explorar a
natureza, a química e as ciências da mineração e da anatomia".
Ele escreveu sua obra
teológica sem esperar recompensa por ela e despendeu grandes
importâncias de seu bolso sem esperança de reavê-las. Só teve
despesas, e os lucros que, porventura, resultaram dessa obra foram
distribuídos como contribuição para estender o conhecimento da
Bíblia, de acordo com sua determinação. Não procurou discípulos,
nem fez tentativa de organizar qualquer Igreja, tendo vaticinado,
entretanto, que, com base nos seus escritos, uma Igreja se haveria de
estabelecer.
É óbvio que tais
considerações não serão suficientes para convencer alguém de que é
verdade o que Swedenborg escreveu, mas devem constituir razão bastante
para que se façam investigações e estudos sérios sobre as obras
referidas.
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