."Dentre
as muitas versões do caso de Madame Marteville, reproduzidas pelo Dr.
R. L. Tafel em seu livro Documents, selecionamos novamente a que
foi contada por Kant a Charlotte von Knobloch, baseada em informações
que ele (Kant) recebera de um amigo a quem incumbira de investigar o
episódio in loco.
"A
senhora Marteville, viúva do embaixador da Holanda em Estocolmo, tempos
depois da morte de seu marido, foi procurada por Croon, um joalheiro, a
respeito de uma dívida do extinto com ele. A viúva não podia
acreditar que seu marido, um homem de hábitos conservadores, pudesse
ter deixado alguma dívida por saldar. Mas, por mais que procurasse,
não conseguiu encontrar o recibo correspondente. Como a quantia era bem
alta, ela decidiu convidar Swedenborg à sua casa. Depois de pedir-lhe
desculpas por importuná-lo, pediu-lhe que, se realmente possuísse
poderes paranormais, como se dizia, talvez pudesse perguntar ao seu
marido onde tinha guardado o tal recibo. Swedenborg acedeu, prontamente,
ao pedido. Daí a três dias, Swedenborg voltou à casa da senhora
Marteville e, em tom calmo e pausado, contou-lhe que havia conversado
com seu marido e este lhe dissera que a dívida em causa tinha sido
paga, uns sete meses antes de sua morte e o recibo estava guardado num
compartimento de sua escrivaninha. A viúva retrucou que a escrivaninha
tinha sido totalmente revistada e o recibo não fora encontrado entre os
documentos. Swedenborg, então, lhe disse que, ao se abrir a gaveta
esquerda da escrivaninha até o fim, um fundo falso revelaria um
compartimento secreto onde estavam guardados seus papéis pessoais e o
tal recibo. Após ouvir atentamente as instruções de Swedenborg, a
viúva e alguns dos presentes rumaram para a sala onde estava a
escrivaninha. Lá chegando, abriram-na, conforme as instruções de
Swedenborg e lá estavam os documentos pessoais do extinto e o recibo em
questão.
"O
interesse de Kant por esses casos surgiu através de sua amizade com a
senhora von Knobloch, que pediu sua opinião a respeito da vidência de
Swedenborg. Para atender o pedido da amiga, Kant procedeu a diversas
investigações sobre as ocorrências vivenciadas por Swedenborg. Os
resultados desse inquérito estão relatados na carta supramencionada. O
original dessa carta está reproduzido no livro Life of Kant, de
autoria de Borowsky, publicado em Konigsberg, em 1804, e, em sua versão
inglesa, aparece às páginas 625/636 do segundo volume do livro Documents,
de autoria do Dr. R. L. Tafel.
"Embora
confirmasse cabalmente todas essas histórias, Kant se resguardava das
insinuações de ingenuidade, dizendo:
"Ninguém
poderá acusar-me de ter tendência a devaneios ou crendices infundadas
ou de excessiva credulidade. E, embora de longa data tivesse
conhecimento de fatos ligados a aparições e visões do mundo dos
espíritos, sempre achei que era mais lógico e racional negar-lhes
autenticidade. Mantive essa postura até tomar conhecimento dos casos
vivenciados por Swedenborg. Tomei conhecimento desses fatos, através do
relato de um oficial dinamarquês, amigo meu, que costumava comparecer
assiduamente às minhas conferências. Ele me contou sobre uma carta
escrita pelo embaixador da Áustria em Estocolmo, Barão de Lutzow, ao
seu colega, Dirtrichstein, embaixador da Áustria em Copenhague. Na
carta, o Barão de Lutzow contava que presenciara, na companhia do
embaixador da Holanda em Estocolmo, o episódio envolvendo sua
Majestade, a rainha Ulrica da Suécia. Esse testemunho convenceu-me, de
vez, a investigar pessoalmente todos os fatos vivenciados por
Swedenborg. Afinal de contas, não me parecia possível que um
embaixador transmitisse a um colega informações infundadas sobre a
Rainha da Corte junto a qual estava acreditado e, ainda por cima, desse
testemunho inequívoco de sua veracidade. E, então, despido de todos os
preconceitos sobre aparições e visões do outro mundo, decidi
informar-me sobre todos os detalhes desses casos.
"Incontinente,
escrevi ao meu amigo, oficial dinamarquês, e lhe inquiri, novamente,
sobre o episódio da carta do Barão de Lutzow. Respondeu-me que se
tinha avistado novamente com o Conde Dirtrichstein, que lhe confirmou
que o caso da rainha Ulrica tinha acontecido exatamente como era do
conhecimento público, aduzindo que o Professor Schlegel também
declarara a ele que a veracidade do caso não poderia ser posta em
dúvida.
"Como
todos esses testemunhos ainda não fossem suficientes para saciar sua
curiosidade, Kant incumbiu um amigo, inglês, que estava de partida para
Estocolmo, de fazer novas investigações sobre Swedenborg. Antes mesmo
de conseguir se entrevistar com Swedenborg, poucos dias após sua
chegada a Estocolmo, o amigo lhe escreveu a seguinte nota: "As
pessoas mais respeitáveis de Estocolmo me asseguram que o episódio
envolvendo Swedenborg e a rainha Ulrica aconteceu exatamente como fora
amplamente divulgado". Após se tornar amigo de Swedenborg, a quem
visitava freqüentemente, o tom de suas cartas passou de uma certa
incredulidade a um indisfarçável espanto diante dos fatos.
"Swedenborg é um homem generoso, razoável e muito educado; é,
também, homem muito culto. Ele me revelou que Deus lhe tinha dado o
extraordinário poder de se comunicar com os espíritos, a qualquer
tempo. Como prova disso, citou os casos mais conhecidos". Depois de
muitas investigações sobre Swedenborg, Kant se referiu aos episódios
do incêndio em Estocolmo e ao caso do recibo de Madame Marteville,
assim: "Quem poderia, em sã consciência, duvidar da veracidade
desses fatos?" E, invocando o testemunho de seu amigo, que fora por
ele incumbido de investigar todos esses episódios em Estocolmo e
Gotemburgo e das inúmeras testemunhas ainda vivas, Kant concluiu que as
três histórias acima pormenorizadas não podiam ter sua autenticidade
refutada. Mas, além desses casos mais difundidos, há inúmeros outros
episódios igualmente interessantes e dignos de serem incluídos nesta
biografia. Um dos mais notáveis é o de John Wesley, que está
reproduzido, integralmente em carta do Sr. John Isaac Hawkins,
engenheiro e inventor dos mais conhecidos, ao Reverendo Samuel Noble,
datada de 6 de fevereiro de 1826, transcrita parcialmente abaixo.
"Em
resposta à sua carta sobre o caso Wesley, posso afirmar-lhe que, em
diversas ocasiões, por volta de 1787 ou 1788, ouvi o Reverendo Samuel
Smith, um dos colaboradores do Reverendo Wesley, contar que estava
trabalhando com o referido Reverendo na organização de sua cruzada
anual, quando este recebeu uma carta que o deixou atônito. Refeito do
susto, o Reverendo leu aos presentes a carta escrita mais ou menos nos
seguintes termos:
"Great
Bath Street, Cold Bath Fields, Fevereiro
[?] de 1772.
"Prezado
Sr. , fui informado, no mundo dos espíritos, que o senhor desejava
ardentemente conversar comigo. Terei prazer de receber sua visita. Sou,
de Vossa Senhoria, humilde servidor.
"(as.)
Emanuel Swedenborg.
"O
Sr. Wesley confessou aos presentes que realmente estava desejoso de
conhecer Swedenborg e conversar com ele, mas que nunca revelara esse
desejo a ninguém. Respondendo a Swedenborg, o Reverendo Wesley
disse-lhe que estava em véspera de iniciar uma viagem de seis meses e
que voltaria a entrar em contato com ele assim que retornasse a Londres.
"O
Sr. Smith disse-me, então, que soube que Swedenborg respondeu à carta
do Reverendo Wesley, dizendo-lhe que a visita seria impossível, pois
então, ele, Swedenborg, já teria entrado no mundo dos espíritos, a 29
do mês seguinte, para nunca mais voltar.
"O
Dr. Tafel, em seu livro Documents Concerning Swedenborg apresenta
testemunhos irrefutáveis sobre a veracidade desse caso".
(Do
livro: Swedenborg, Vida e Ensinamentos, George L. Trobridge,
S.R.N.J, Rio, 1999)